A Saga continua...

Há praticamente um ano relatei aqui mesmo uma das minhas aventuras rumo ao sertão. Aliás, toda viagem que faço para lá é uma aventura, mas essa me mostrou algo óbvio, que estranhamente eu não havia percebido antes: toda cearense precisa ter uma mala rosa, voluntaria ou involuntariamente.

Depois dessa aventura também acordei para o fato de que andar nas ruas de Juazeiro sem uma máquina fotográfica é um grande desperdício de oportunidades de registrar coisas incríveis, e também uma forma das pessoas não duvidarem das coisas fantásticas que eu vejo, e que só acontecem lá.

Acabo de chegar de lá, e trago mais constatações óbvias que jamais me ocorreram. Eu realmente não sei por que ainda perco tempo dormindo quando chego naquela cidade, tantas são as coisas interessantes que acontecem. É como viajar para a Terra do Nunca e não sair de casa, enquanto os cearenses voam e lutam com piratas. E em se tratando cearenses, não duvido mesmo.

Logo na entrada da cidade há uma placa dizendo "Bem Vindo a Juazeiro do Norte, a terra do povo abençoado por Pe Cícero".
Não demora muito pra você descobrir que aquele povo precisa mesmo estar abençoado, ou já teriam morrido todos no trânsito. É caótico, infestado de moto-taxis, paus-de-arara, ônibus, bicicletas e carroças! E como se o volume de carros já não fosse absurdo, todos dirigem enlouquecidamente, do caminhoneiro ao carroceiro.
Vi uma cena emocionante: um amontoado de carros e motos entrando numa rotatória já cheia de veículos, todos em alta velocidade, e ainda por cima um cachorro tentando atravessar. Era um cruza-cruza de carros tão absurdo que aquilo renderia no mínimo um acidente horroroso. Levei as mãos pra cabeça e gritei pra mim mesma "Valei-me meu Padim Ciço!". Pois não é que milagrosamente aquele nó cego se desfez e todos saíram ilesos, inclusive o cachorro? Na verdade essa cena ocorre em diversos lugares da cidade, várias vezes ao dia, mesmo sem o cachorro. Fico me perguntando se a prefeitura mantém alguém nos pontos mais agitados pra clamar pelo padre sempre que o sinal abre.

Mas se o trânsito te arranca os cabelos, o povo te arranca gargalhadas. Juazeiro tem um imã para as figuras mais inusitadas: beatos cobertos de adereços religiosos, te olhando como se estivessem te desejando um ótimo fim de era; artistas malucos usando óculos de sol, chapéu de massa e bolsa de couro de bode; peruas hilárias das cidades ao redor, que vão à cidade pra comprar panelas de alumínio e bolsas de couro; gente sofrida com cara de feliz porque está na terra do “Padim”; e doidos de todos os sabores e cores. Dá vontade de tirar fotos com todos eles, e dizer “eu sou seu fã, macho véi!”, mas infelizmente eu não sou tão despojada quanto os cearenses de lá.

Mas, continuando minhas pesquisas antropológicas, constatei que a mulher cearense não gosta apenas de malas rosa. Tudo deve ser rosa, se possível. Encontrei um fogão rosa, um ventilador rosa, um DVD player rosa, uma árvore de natal rosa (essa eu não pude fotografar), e (pasmem) Razão e Sensibilidade rosa!!!! Eu não vi, mas minha cunhada me garantiu que há varias motocicletas rosa espalhadas pela cidade.

Enquanto aos homens? Ainda não descobri qual é a deles. Só sei que eles ignoram completamente a existência dos itens rosa, como se nem estivessem ali. Não debocham, não resmungam, não comentam. Mais uma vez eu acho que trata-se da sabedoria do cearense: Respeita o espaço da mulher, que ele não é besta de bulir com as baixinhas invocadas de lá.

Esse é meu Juazeiro, sempre me surpreendendo. Ô povo feliz, afff namm!!

A essência da paz interior

Qual é a essência da paz interior?

Há muitas frases prontas e textos escritos por aí sugerindo que a paz interior é algo como uma sutil indiferença a tudo que não gostaríamos que nos afetasse. Algo como um distanciamento dos problemas do cotidiano, ou o poder de concentrar-se exclusivamente no presente, deixando que o amanhã se encarregue se si mesmo.

Não nego que o distanciamento do mundo externo tenha seu valor em determinadas circunstâncias, mas tomá-lo como lema em nossas vidas não é muito duro com nós mesmos? Muito focado no isolamento da alma do resto do mundo, negando seus próprios sentimentos e a integração com o ambiente que a cerca? Negando principalmente o seu papel como ator. Bernard Shaw disse que "O maior pecado que cometemos para com as outras criaturas não é odiá-las, mas ser indiferente a elas. Essa é a essência da falta de humanidade". Ignorar o que nos é desagradável também não é ser indiferente a nós mesmos?

Será então a disposição para dar amor ao próximo, sem esperar algo em troca? A compaixão e a paciência com nossos inimigos? A capacidade de relevar sobre qualquer circunstância? A humildade? A resignação? A temeridade?

Mas a prática apenas disto, e o distanciamento de nossas próprias necessidades, não nos colocaria muito próximos do desamor-próprio? Seria uma espécie de contra-egoísmo, onde o Eu está em ultimo lugar. Na teoria, muito bonito e digno de santos. Na prática, ainda muito difícil para nossas almas cheias de desejos e da necessidade de recompensas por nossos bons atos. Às vezes isso me parece uma necessidade de ser visto como coitadinho por Deus, e digno de piedade.

A sensação que tenho é que pessoas que levam essas idéias muito a sério estão quase sempre na iminência de ruírem. A fachada está nova e limpa, mas o interior parece cheio de remendos, e qualquer ventania pode derrubar um muro e pegar de surpresa um inquilino com as calcas na mão.

Cada vez mais acho que o caminho não é pelo exercício de algo específico (como distanciamento ou resignação), mas pelo não-exercício de algo:
Eximir-se da vaidade, sem confundi-la com amor-próprio, para não perdermos as oportunidades de nos melhorarmos.
Da auto-crítica excessiva, sem confundi-la com auto-analise, para não esquecermos das nossas qualidades e deixarmos de alimentá-las.
Do rancor e da inveja, para não nos contaminarmos com nosso próprio veneno.

Se isso vai trazer paz, eu não tenho idéia. Mas suponho que pelo menos nos previna de uma perfeição fantasiosa, e nos aproxima de uma imperfeição passível de melhoria.

Contos Perdidos: O garoto e o homem


Toninho era luminoso, de uma risada meio desengonçada, meio inocente, como quem ria de suas próprias piadas sem esperar que os outros achassem graça alguma. O humor e a inteligência de Toninho o diferenciava dos demais rapazotes de sua idade. Não era sua intenção ser divertido ou interessante, era apenas seu jeito de ser.

Georgiana, bem mais velha e experiente, encantava-se com Toninho e com o fato dele desconhecer completamente o quanto era especial. Georgiana encantava-se, mas não tinha um interesse genuíno em Toninho. Ela apenas admirava aquele viço, aquela alegria despretensiosa, e imaginava o homem maravilhoso que Toninho seria, e de como a sua escolhida seria uma mulher de sorte, e portanto deveria ser tão especial quanto ele.
Georgiana desejou que sua filha ou uma de suas sobrinhas fosse uma mulher à altura do homem que Toninho seria. Sim, no futuro Toninho seria o homem que ela própria gostaria de encontrar no presente.

...

No casamento do filho de uma amiga, Georgiana sentou-se à mesa dos amigos de sua filha. Adorava observar a alegria despreocupada dos jovens. Eis que aquele homem se aproxima, bonito e retentor de atenções. Era Toninho, homem feito. Georgiana sorriu para o rapaz, chamando-o para um reencontro de amigos.
Toninho, agora Tony, exalava uma autoconfiança sólida como uma parede, mas ao mesmo tempo parecia pedir com olhos que as pessoas confirmassem quem ele era. Sentado displicentemente com tronco e cabeça inclinados para trás, pernas cruzadas para fora da mesa, demonstrava que queria atenção, mas ao mesmo tempo queria proteger-se dos demais. Gabava-se de aventuras e enumerava conquistas num tom quase debochado. E Georgiana atenta, procurava o homem que ela previra no passado.

Toninho havia se dado conta do seu carisma, mas interpretou que “aquilo” era consequência do seu poder atrativo, quando na verdade o seu poder atrativo era consequência do que ele era.
Infelizmente, Tony não era o homem maravilhoso que Toninho poderia ser.
Georgiana sorriu um sorriso educado e aguado, e despediu-se de Tony. Enquanto deixava a mesa, olhou para sua filha e imaginou: que pena que ele não é um homem à altura da mulher maravilhosa que ela se tornou.

Educação Sexual para Filhinhas Queridinhas do Papai

Sou do sertão do Ceará, bisneta, neta, filha e sobrinha de homens que se orgulham de serem vaqueiros, os verdadeiros heróis do sertão, cabras machos virados nos 600 djabos e defensores da honra de suas mulheres e filhas.

Saí do meu sertão amado para o Recife aos 17 anos, para prestar vestibular e entrar numa faculdade. Meu pai queria que eu fizesse medicina ou direito, que são as profissões que quase todos os pais sertanejos desejam para seus filhos, e que (segundo ele) impõem mais respeito para as mulheres. Mas eu escolhi ciências da computação, uma área completamente desconhecida para ele. E conversamos:

- Pai, o senhor nunca ouviu falar que toda família bem sucedida deve ter um médico, um advogado, um engenheiro e um padre. Faz de conta que eu sou a engenheira da família.
- E é, é? Então eu vou logo avisando que padre eu não aceito aqui em casa! Todo filho meu tem que botar fogo no roçado!
- E é, é? hummmmm....
- EEEEEEI!!!! Ave Maria, ave Maria, ave Maria! Não foi isso que eu quis dizer.... ô mulher, vem aqui conversar com sua filha! Ave Maria, ave Maria!

Muito antes de Millor Fernandes, papai já dizia que celibato é coisa de pervertido. E mamãe chega para acalorar a conversa.

- É o quê?
- Converse com sua filha. Avise logo que ela só pode namorar depois que se formar.
- E desde quando diploma ajuda a namorar? A gente aprende é na prática, não na teoria.
- Homi, mulher! Você tá doida? Eu casei com você pra você me ajudar, não pra falar essas coisas pra minha filha!
- Homi, homi! E desde quando pai empata filho de namorar? Você quer que ela namore escondida?

Então papai se volta para mim, e fala sério:

- Olhe minha filha, eu não aceito que você namore escondida, mas se namorar, por favor não me diga. Fale só pra sua mãe.

Mamãe segue duas célebres linhas de educação: A cognitiva comportamental e a "Te vira malandro". Para cada filho ela tem uma abordagem diferenciada, segundo sua personalidade, suas aptidões, suas vivências. Agora, se alguém fizer besteira, ela chama pra uma conversa e manda a gente arrumar tudo antes que papai chegue, senão o bicho pega.

No meu caso, por exemplo, enquanto papai me via rodeada por uma aura rosa, de personalidade meiga, indefesa e abestalhada, ela já me ensinava a assumir a responsabilidade por meus atos, me fazendo pensar em conseqüências antes de qualquer ato. Ou seja, mamãe me ensinou a sentir medo, mas de uma forma positiva, responsável.

E o engraçado disso é que herdei o espírito ousado de papai (que insiste em me tratar como uma menina frágil), e o pensamento ponderado de mamãe (que me ensinou a calcular meus saltos para voar cada vez mais alto).

Minha Alma Negra

Eu tenho uma alma negra, daquelas que faz dreads no cabelo e tem requebrado nas cadeiras. Pena que minha herança genética discordou da minha alma, e eu nasci branquela e com o samba limitadinho.

Fazer o que, né? Resta-me admirar a melanina das minhas amigas "negritas" e "pretinhas" e ficar secando a voz de cantoras como India Arie, Negra Li, Alcione, Aretha Franklin e Joss Stone (que tem só alma negra, como eu).

Certa vez, conversando com um amigo espiritualista, falei dessa minha queda (inclusive pelos negões) e ele me disse: Sei lá... é possível... quem sabe... vai ver você já foi uma negona em outra vida!

Eureca!!! E eu viajei no sonho: Na juventude pretinha marrenta, desbocada, trabalhadeira e totalmente filha de Iansã. Na maturidade preta corpulenta, rezadeira e quituteira.

Tomara mesmo que tenha sido assim. E se assim for, na próxima vida quero ter o padrão "Mulata Sargenteli", daquelas com a mola da cintura folgada e o cabelo de um vistoso macarrão parafuso... e totalmente filha de Iansã.

Amar o Impossível

L me disse certa vez que jamais esquecerá R.

R está do outro lado do véu. R se foi. Isso torna a saudade ainda maior. Não dá pra ter notícias, pra bisbilhotar sua vida, não dá pra colocar a culpa no outro, não dá.

Quando a saudade aperta, L bebe umas cervejas até perder um pouco a consciência, seu corpo flutua no infinito, e L quase sente a amada presença de R. L ri de canto de boca, olha pro nada e pisca o olho devagar. Não dá pra fazer mais do que isso, porque L não se sente correspondido.

Amar o impossível é uma tarefa muito difícil, e ao mesmo tempo é tão fácil. O impossível vem até você sempre que você quer, mas nunca fica o suficiente. O impossível não te magoa, mas jamais retribui o que você dá. O impossível te enche de vazio, e te transborda de intensidade.

A vida de L segue, normalmente, na medida do que é normal. E R... será que, atrás do véu, olha para L e responde a cada um dos seus gestos? Será que R também ama o impossível?

Se ama, então esse sim pode ser o impossível insuportável. É o impossível que está sempre presente, mas que não vem até você. Que deseja te dar tudo o que você gostaria, mas não pode entregá-lo. Que te completa de amor, e te esvazia de esperanças.

Amores assim são lindos e tristes. Amores assim fazem parte de nossas vidas, aqui e lá.

A saga de uma cearense que voa

Eis que peço uma mala emprestada para minha viagem de férias na Europa, e quis o destino que entre tantas que me foram oferecidas, a mala rosa de uma conterrânea cearense fosse a única cujas dimensões eram adequadas para minha viagem.

Tudo bem - pensei - compro outra durante a viagem.

Tudo bem vírgula, porque eu me sentia uma menina gigante carregando aquela mala, enquanto meus colegas, sóbrios, elegantes, discretos, seguiam sem despertar olhares enviesados dos europeus. Os europeus são implacáveis com aqueles olhares reprovadores, julgando a sua deselegância. E eu me sentia totalmente inadequada com aquela mala rosa, e sem laço de fita na cabeça.

Tudo bem - pensei novamente - pelo menos a mala se destaca no desembarque.

Finalmente, no fim da viagem, sigo para comprar uma mala. E encontrei a mala ideal para minhas necessidades, com o preço dentro do meu orçamento, mas quis destino que a loja tivesse apenas uma unidade desse modelo, e justo rosa. Não era a cor que eu queria, mas a mala era resistente, com ótimas divisões, e o preço justo, ....

Tudo bem - eu penso demais como Poliana - pelo menos meus irmãos não vão querer tomar a mala de mim.

Chego de viagem a Recife, e logo em seguida embarco novamente, agora para o sertão. Seria meu primeiro vôo para Juazeiro do Norte. Viajar para o Ceará me dá a mesma sensação de viajar para outro mundo, com regras sociais distintas, personalidades impensáveis para os padrões da humanidade e muito mais. Primeiro pense numa fila de cabeças chatas no portão de embarque, falando "ei macho" e "djabo é isso". Agora pense na moça da empresa aérea informando que o embarque preferencial será feito primeiro, e todo mundo correndo pra o portão de embarque ao mesmo tempo. Uma doidinha dizendo "Marminino, eu tenho preferência, que eu tô cheia de sacolas". Pense!!

Eu sento e espero o estouro de boiada passar. Eu sei que eu também tinha preferência, afinal eu sou filha de Dadá Ferreira, mas minha educação européia recém-adquirida me impede disso.

Embarcada e decolada, na janela pra poder ver o sertão de cima, o comandante avisa:
- Dentro de quarenta minutos pousaremos na cidade maravilhosa de Juazeiro do Norte.
- Ô delícia - penso eu - tomara que dê pra ver o Padre Cícero Redentor.

E logo começa o procedimento de pouso. Estranho, eu só vejo roças, e a estátua do padre Cícero não apareceu. E tome roça, e o chão chegando, e mais roça, agora uma roça queimada de broca, e a pista de pouso. Fizeram uma broca no terreno do aeroporto!!!! Será que vão plantar milho? Ainda bem que não tinha um jumento pastando.

Pronto, agora vamos ao desembarque. Como era de se esperar, várias pessoas levantam-se antes que o avião termine o taxiamento, e o comandante avisa:
- Passageiros, continuem com os cintos afivelados. Quem estiver sentado... continue sentado.
- E quem já tá em pé, faz o que? - grita um cearense, claro.

Quando desço do avião, a cena arrebatadora: o aeroporto é pequeno, como era de se esperar, mas eu não imaginava que tanta gente ficasse pendurada na cerca olhando os aviões pousarem. Tinha homem, menino, velho, mulher buchuda, cachorro, cavalo amarrado na cerca... Talvez seja o hábito das vaquejadas. Sei lá, só sei que todo aquele glamour aéreo (maifresca!) finalmente sumiu.
Eu quis muito tirar a câmera da bolsa e fotografar aquela matutisse, mas o maior medo do preconceituoso é ser acusado dos mesmos defeitos dos outros. É que fotografar desembarque de avião seria matutisse demais, e eu tenho uma reputação européia a zelar.

E sigo para a sala de coleta de bagagens, pensando que pelo menos minha mala rosa seria identificada rapidamente, e tenho o segundo arrebatamento do dia: uma infinidade de malas rosas!!!!!
É inacreditável! Todas as cearenses usam malas rosas!!! E eu me controlando pra não fotografar aquilo. É que fotografar coleta de bagagens seria mais matutisse que fotografar desembarque de avião.

Depois de alguns minutos com os olhos atentos para identificar minha mala entre tantas parecidas, tento sair da sala de desembarque. Enfrento outra pequena multidão de cabeças chatas impedindo a passagem, porque estão esperando alguém e porque estão curiosos para bisbilhotar o desembarque. E finalmente encontro meu irmão, que me fala:
- Por que você comprou uma mala rosa? Pra que eu não nunca te peça emprestada?
- Eu garanto que não tinha pensado nisso. Em compensação posso emprestá-la para muitas amigas cearenses.

Pra finalizar, eu convido todos os amigos que visitarem a amada terrinha a passearem pelo comércio contando a quantidade de malas rosas à venda. Na pior das hipóteses alguem vai te chamar de alesado, e mesmo assim você vai adorar.

A todas nós... e todos nós também


Quando meu pai quer me elogiar ele diz "ô nega macha!". Ele também diz que herdei as melhores qualidades dele, e ele acha que são justamente aquelas que o fazem um homem de verdade.
Alguns colegas de trabalho dizem que programo e dirijo como um homem, e dizem que isso é um elogio. O lado bom dessa "camaradagem" é que tenho acesso às piadas mais infames, mas às vezes esse também é o lado ruim.
Uma grande amiga sempre me diz que se eu fosse homem ela me namoraria, porque, segundo ela, eu consigo racionalizar coisas que muitas mulheres não conseguem, e essa é uma qualidade que muitas de nós procuramos nos parceiros.

Essa é a forma que algumas pessoas encontram para nos elogiar: ressaltar nossas qualidades supostamente masculinas.
Agradeço cada um dos elogios, mas discordo que essas qualidades sejam próprias do gênero masculino. Nossas qualidades, e defeitos também, são reflexos das nossas vivências, dos nossos valores, e da nossa sensibilidade, claro.

Coragem, força e determinação não são exclusivas dos homens, mas de toda pessoa que tenha fé em si mesmo e no dia de amanhã, seja um bombeiro ucraniano que, mesmo certo da própria morte, enfrenta um vazamento nuclear para salvar os demais, ou uma mulher haitiana que perdeu tudo, e ainda assim adota os órfãos dos vizinhos.

Paciência, delicadeza e dedicação não são exclusivas das mulheres, mas de toda pessoa que tenha amor no coração e não tenha receio de compartilhar, seja uma enfermeira que dedica seus dias e noites para amenizar a dor de doentes terminais, ou um motorista de ônibus que toma todo o cuidado ao acomodar idosos ou deficientes, independente do percurso que farão.

É por isso que no Dia Internacional da Mulher, eu não comemoro um gênero específico, mas todas as qualidades que nos fazem tão impressionantes, que nos fazem humanos.
Eu comemoro a fé, a coragem e o dom de amar o próximo, seja pela mão delicada de uma mulher, ou pelo braço forte de um homem.

Entre bocejos e dilemas

A coisa é mais ou menos assim: você passa uma vida correndo atrás do que você acha que te faria feliz, e um belo dia (belo mesmo) você entende que a felicidade não depende disso. Hoje eu me sinto feliz, a ponto de conseguir olhar pra o pôr-do-sol, bocejar e sorrir, a ponto de me lembrar eventualmente de como amo meus pais, a ponto de conseguir pensar em nada quando há nada para fazer. Hoje entendo que felicidade não é euforia. Felicidade é tranquilidade.

Como toda pessoa que conheço, passei momentos de minha vida ruminando alguns questionamentos, mas se não os tenho resolvidos hoje é por não precisar resolvê-los com aquele senso de urgência que havia antes.

Na profissão eu vivi o dilema de estar deixando de fazer o que me dava prazer e assumir responsabilidades que não me considerava apta a desempenhar. Me angustiei com o medo de virar uma profissional medíocre, frustrada, e assim já estava me tornando isso. Então entendi que isso não era uma cilada profissional, mas a evolução natural de qualquer profissão, e mais ainda para a minha. Eu não precisava deixar de fazer o que gosto e acho que faço bem, eu apenas tive a oportunidade de alargar meus conhecimentos, de experimentar novos desafios e aprender a superá-los. Se eu não era excelente no que fazia, então que aproveitasse a oportunidade para me tornar. É uma idéia digna de palestras motivacionais, mas que demora a ser assimilada de verdade quando se é resistente a mudanças (e eu sou muitas vezes). O resultado disso é que ganhei mais confiança em mim mesma. Se hoje sou excelente no que faço? Acho que ainda tenho muito a aprender, mas estou muito satisfeita minha disposição para aprender. Não involuí como analista de sistemas, mas cresci como profissional.

No amor tive que aprender o que é uma relação intensa e uma relação boa. Engraçado é que eu achava que já sabia, mas estava completamente enganada. A pessoa que jamais viveu uma relação intensa pode ter certeza de que não viveu, mas nem toda relação intensa é boa para ser vivida por muito tempo. Por outro lado, uma boa relação não se constrói apenas de coisas boas. Uma boa relação precisa passar por momentos difíceis para que se mostre forte e pronta para o que der e vier. Uma boa relação precisa ser testada vez por outra, e se garantir no seu teste. É por isso que hoje tenho mais segurança para abrir mão de relações que não me tragam o que preciso, seja intensidade ou maturidade. E abro mão sem precisar colocar a culpa em alguém, nem me sentir culpada, afinal não existem relações individuais, todas são entre duas pessoas, pelo menos.

Também no amor (agora fraternal) tive o medo (aliás, pavor) de mais uma vez perder entes queridos, seja por saúde, seja por toda essa violência que nos persegue por onde andamos. Não consigo suportar a dor de ver as pessoas que eu amo sofrendo, mesmo sendo bastante fria quando o problema é comigo. Há solução para isso? Talvez a solução fosse gostar menos das pessoas. Mas a verdade é que para essas pessoas, saber que alguém os ama tanto já é uma espécie de solução. É o amor que nos dá forças para superarmos as adversidades, e se o meu amor os ajuda tanto, então que me importa sofrer. Sofro "feliz" por contribuir com essa fonte de cura tão importante.

E assim eu e a humanidade caminhamos. Eu bocejando para o pôr-do-sol, de vez em quando.

Paris d'Amélie Poulain... e minha também

Pra quem se delicia com paisagens, músicas e histórias.

Saudade Quentinha

Algumas pessoas têm nosso amor independente do que houver.
É um carinho imenso que não diminui com o tempo, uma saudade que não chega a doer, mas que nunca passa. Uma saudade quentinha. Pra mim isso é amor genuíno, que pode até ser desprovido de paixão, mas é puro.

Tem gente que já se foi desse mundo, mas que ainda me visita em sonhos. Tem gente que se foi apenas da cidade, mas ainda me arranca um sorriso quando aparece na web, mesmo que não escreva uma linha pra mim.Tem gente que nos faz feliz sem sequer se esforçar pra isso.

Algumas pessoas têm isso de mim, e algumas delas já me disseram ter isso por mim também. Que bom, o universo está equilibrado.

Descontração

Para ouvir enquanto faz planos para um futuro não muito distante, sem hora marcada para qualquer coisa, nem mesmo hora marcada para ser feliz, porque a felicidade já deve estar sendo vivida, todo tempo, em todo lugar.

Um Painel de Estilo

Meu mais recente passatempo é o site Pinterest, onde pessoas compartilham imagens com pouco texto. As imagens falam por si. Vai ver é por isso que quase não tenho escrito.

Na verdade... ando meio preguiçosa para as discussões filosóficas, e mesmo para as brincadeiras em grupo. Ando mais propensa a me desligar no meio das conversas e ficar sentindo aquela carícia que o vento faz no meu rosto. Se me pedem uma opinião eu respondo "depende", para não parecer que não ouvi, mas no fundo eu ando curtindo mais a ausência. Mas não há motivos ruins para isso, muito pelo contrário, o que há é uma distração gostosa, apenas. Tô numa boa, e volto mais tarde.

Mas voltando ao Pinterest, veio muito a calhar para uma brincadeira que adoro desde pequena (porque criança eu ainda sou), e que descobri depois ser uma técnica usada por figurinistas para montar o look de personagens: montar um painel com as imagens que remetem ao estilo e à personalidade de alguém.

É uma brincadeira não apenas divertida, mas interessante para quem quer se conhecer melhor através do seu estilo. Por exemplo, tenho uma prima que adora o estilo perua com roupa de onçinha e muito brilho, e acreditem, nela fica ótimo, sem sequer parecer vulgar ou brega. Ela simplesmente entende e aceita seu próprio estilo, e sabe usá-lo porque é natural para ela. Acho que no fundo ela se aceita como é, e por isso transparece aquela segurança que faz as pessoas te acharem de bem com a vida, e por isso gostam do que vêem.

Já curti alguns estilos diferentes na vida, mas nunca abri mão de algumas cores e caimentos específicos. Por exemplo, adoro tons terrosos e tecidos molinhos e transparências. Adoro o que remete à beleza natural, sem excessos. Adoro aquela discrição que chama atenção. Eu acho que isso sugere o quanto gosto de profundidade em meus sentimentos e de como lido com minha sensualidade.

Hoje estou mais vintage e country do que nunca, porque dentro de mim moram uma pinup (inspirada em minha mãe) e uma vaqueira (inspirada em meu pai).

E é isso.

Enjoy it


Falo muito disso com meus amigos mais agitados, porque também sou agitada às vezes. E porque já fui mais agitada emocionalmente, sem gostar de ser assim, é que me permito dizer de vez quando: Homi, deixe de frescura! Faz tempo que ser dramático saiu de moda, faz tempo que as mocinhas de novela deixaram de ser sofredoras, ter bons amigos nos faz mais felizes que ter amantes, e ter sexo bom nos faz mais bonitos que ter bom cabeleireiro.

Feliz 2011 para todos!!

Hoje eu desejo às amigas um vestido branco com muitos adereços coloridos, para trazer muita paz e uma série de bons sentimentos neste ano.

Aos amigos eu desejo sandálias confortáveis e um punhado de bombons no bolso, para que os caminhos sejam agradáveis e gratificantes no ano que se aproxima.

Meu vestido já está engomado, e já tenho alguns bombons separados para que ninguém seja pego desprevenido. Vejo todos em 2011.

Nossos terroristas

Bin Laden tem 2 meses, e é o masquote de papai. É um vira-lata sangue-puro, malandro e elétrico como são os de sua linhagem. Papai escolheu esse nome porque remete a "um cabra macho da bexiga lixa".

Alexandre Muniz e Dudu Muniz têm 7 anos e são primos. São munizes sangues-puros, malandros e elétricos como são os de sua linhagem. Os dois juntos fazem parte da nova geração de terroristas mirins da família Muniz.

Existe uma lenda de que sempre há uma dupla de pequenos munizes aterrorizando as redondezas. Já houve duplas célebres, como Munizinho e Carlito (os terroristas politizados), Gina e Tatinha (os terroristas esportistas), Geninho e João Henrique (os terroristas de vaquejada) e João Gabriel e Yuri (os terroristas músicos). Tudo indica que Alexandre e Dudu vieram para confirmar essa lenda e iniciar um novo reinado de travessuras.

Alexandre e Dudu são tão arteiros que os pais não se preocupam em deixá-los soltos pela cidade. A segurança pública é um problema do governo, não deles. E nosso vira-lata Bin Laden não fica atrás. Já aprontou tantas que mamãe está pensando seriamente em cerrar seus dentes com uma lixa de unha.

Hoje ouve um grande embate entre a dupla de terroristas mirim e o pequeno terrorista canino. Foi uma pena não ter conseguido fotografar as piores cenas. Eles são muito rápidos e é impossível mantê-los parados por alguns segundos. A gritaria foi tão grande que tivemos medo de chamarem a polícia. E se chamaram, com certeza os policiais fugiram quando souberem quem estava aqui.

Esse foi apenas um pequeno episódio da extensa lista de atos infanto- terroristas da família Muniz, que inclui desde bombas de bosta com um engenhoso esquema de explosão (tão bom que não justificava o conteúdo da bomba) a um rebanho de bois negociado com um circo (sem o conhecimento do pai, que também era o dono dos bois).

Todo santo dia

Eu, que sou devota de Nossa Senhora do Besteirol e devo muitos favores a São Longuinho, não posso deixar de divulgar esse calendário, fruto de um trabalho sério de gente religiosa e desocupada, como eu.

Só lamento não ter encontrado os dias dedicados a Nosso Senhor do Beijim e Nossa Senhora da Perna Bamba, que sempre me acodem quando eu tô aperriada.

O calendário completo está aqui http://www.karmo.com.br/todosantodia/


Bolos e outras alegrias

Adorei Vanessa da Mata cantando as propriedades de um bom bolo, ainda mais sendo receita de família.

"Vó dizia que era perfeição, tradição e evolução
Era o bolo que todos gostavam do Flamengo ao Corinthians
E a molecada espalhada voltava
Tinha o dom de agregar quem brigava
Traz amor em três dias, ou o seu dinheiro de volta
Simpatia contra dispersão
Rejeição, desilusão
Sete ervas dos bons caminhos
Arruda ajuda
"

Já fui muito ao mercadinho comprar ingredientes para o bolo de minha mãe. Ia e voltava saltitando de alegria. Na ida eu gostava de pular e tentar um rodopio no ar. Na volta, com a sacola nas mãos, eu era mais cuidadosa: andava em zigue-zague ou com um pé na calçada e outro no meio fio (Penaforte não tem esgoto a céu aberto). E isso era só a preparação para o bolo, que perfumava a cozinha e me deixava mais animada que gato em feira de passarinho.

Patches e Pulos

Pra cantar (ou fingir que canta) em voz alta, aos pulos e gesticulando para um amigo (ou para o espelho, se você quiser).
Eu prefiro para um amigo, porque eu sempre fecho os olhos quando canto, e posso cair quando pular, daí ter um amigo por perto é mais seguro. Por outro lado o espelho não ri de mim... Nem me faz rir. É, ainda prefiro para um amigo.

obs.: Curto muito como a música negra americana consegue falar de coisas tristes com melodias divertidas.

O retorno ao Monte Saint Michel

A cinco anos atrás conheci o Monte Saint Michel, na Normandia, litoral norte da França. Meio que por acaso, ganhei o ingresso para o jantar de encerramento de um congresso do qual estava participando nas proximidades. De início o ingresso apenas me dava acesso a um passeio qualquer, seguido por um jantar francês tradicional. O passeio qualquer seria antes do jantar, e era apenas um detalhe diante da minha empolgação pelo jantar (não pela fome, mas pelo evento).

Eis que chego ao monumento de Saint Michel, e me deslumbro: uma catedral belíssima, construída em cima de um rochedo, e rodeada por uma das cidadelas medievais mais antigas da Europa. A catedral é feita de pedra e data do século X, ou seja, tem mais de quinhentos anos, e é considerada um triunfo arquitetônico da época. Pouco se sabe sobre a forma como as pedras foram transportadas para o monte, que torna-se uma ilha rodeada por águas muito agitadas quando a maré sobe, e de areias movediças quando a maré desce.

A história do lugar também é interessantíssima: Acredita-se que tudo começou em 708, quando o bispo de Avranches sonhou com São Miguel Arcanjo, pedindo-lhe que construísse um local de oração naquele rochedo. O bispo se negou a acreditar no próprio sonho, imaginando ser fruto do seu subconsciente, até que o arcanjo perdeu a paciência e, no terceiro sonho, perfurou a cabeça do bispo com o dedo. E foi construída uma capela em cima do rochedo, que logo tornou-se local de romarias. Com o passar dos anos, a pequena capela deu lugar ao magnífico santuário. Nesse meio tempo, durante a Guerra dos Cem Anos, Saint Michel também foi motivo de disputas entre Franca e Inglaterra, e tornou-se também uma fortaleza medieval. Aliás, a única que não foi tomada pela Inglaterra naquela região. Dizem os livros que isso foi um dos milagres do próprio arcanjo Miguel, tamanho era o poder da Inglaterra na época, e tamanhas foram as resistências naturais do rochedo consagrado ao arcanjo.

Bem, voltando ao meu deslumbramento: depois de visitar alguns pontos da catedral e da cidadela, fomos ao jantar. Para minha felicidade o restaurante tinha uma vista privilegiada do monumento, que é ainda mais lindo à noite. Tudo* estava incrível naquele dia.

E Saint Michel recebeu um selo de lugar preferido nos meus arquivos pessoais.

Recentemente visitei Saint Michel novamente, e meu deslumbramento só aumentou. Passeando pelas ruas e escadarias, descobri um cemitério e casas muito charmosas. Infelizmente ainda não pude desfrutar de um passeio noturno pelas ruelas medievais, nem do tradicional omelete de frutos do mar, nem da caminhada pela baía, nem de tantas outras maravilhas que o lugar pode me oferecer. Pelo menos tenho muitos motivos para voltar lá várias vezes nessa vida.

*Tudo, exceto o jantar. Não consegui comer a carne de cordeiro praticamente crua, e tive que ouvir algum desaforo incompreensível do garçom quando pedi para assá-la mais. Mas essa é outra história, que acabou tornando-se divertida, e que pode ser contada em outro momento.

Nouvelles de Vacances

Mes amis*,

Eu prometi escrever neste blog a cada dia da viagem, e como era previsto, não cumpri.
Mas não me acusem de preguiça ou descaso. Os motivos reais são apenas o cansaço e a falta de tempo. Paris me consumiu por inteira, e eu me entreguei sem resistência. Já estou em Roma, morrendo de saudades da "minha Paris", mas pronta para me apaixonar por outra cidade**.

A viagem está sendo deliciosa. Cada dia é uma aventura para contar, e renderia posts imensos,
mas eu acho que não consigo condensar tanta informação em um post sobre um dia todo. São vários temas diferentes, e não consigo falar de todos ao mesmo tempo e com clareza (não para mim, pelo menos). Vejo e vivo tudo ao mesmo tempo, mas para contar minhas impressões preciso de um foco, porque acho que tudo merece o valor e o espaço que lhe cabe.

Também decidi não me preocupar em escrever agora (afinal, estou aqui pra passear), mas vou tentar disponibilizar as fotos, pelo menos. Quem ainda não tem acesso ao PicasaWeb, favor me avisar. Vejo email todos os dias.

Quando finalmente começar a postar, não esperem periodicidade, nem sequência temporal. E se quiserem mais detalhes, me chamem pra sair quando eu voltar para casa. Mas vou logo avisando, caso seja para comer um crepe, eu ando muito exigente*** com este prato. Tem que ser, no mínimo, no padrão dos que vendem nas ruas da Paris. Magnifique!

* "Meu amigos", em fracês. Maifresca!!
** A fila do check-in anda.
*** É nada nêga!!! Nem parece que cresceu comendo tapioca.

Celebrar

Para celebrar os amigos, as famílias, as relações sadias, os dias, as noites, o vento, e tudo o que nos traga calor ao coração e sorriso ao rosto.
Esta semana estamos celebrando a união de um casal de amigos especiais. Eu olho para os dois e me parece que uma irmã caçula está casando com o irmão caçula do meu melhor amigo, e penso em tanta coisa que me remete à felicidade típica das pessoas que se amam.

Queria até poder descrever o formato ou a cor dessa emoção. Se eu pudesse, mandaria pedacinhos dessa emoção para muitas pessoas, embalados em caixinhas coloridas, com laçinhos de fita. É a emoção de ver uma família feliz se formar.

Vamos celebrar o amor e a amizade!

Tango

Adoro tango, adoro a sensualidade discreta, a sincronia, a leveza.
É como marcar um encontro de dois casais. Um casal de olhos e um casal de pernas.
Olhos silenciosos, cautelosos, que nao se desgrudam.
E pernas que travam um caloroso e apaixonado duelo.



O tango está para a dança assim como o flerte está para a paixão.

A inquietação


Há dias em que acordamos meio inquietos, aparentemente sem razão. Acordei assim ontem, com borboletas na barriga e alguns fios de cabelos eletrizados.

Liguei para meus pais, para a melhor amiga, vi os dados bancários, penteei os cabelos com pente de madeira, fiz alongamento, ri com os colegas de trabalho, ...
E o dia foi passando, mas aquela sensação estranha não ia embora. Que coisa!

À noite resolvi apelar, e ligar pra um amigo que sempre me dá ótimos insights e me passa uma energia maravilhosa, mas com quem eu não falava a muito tempo. A verdadeira intenção era que ele me acalmasse.

E ele me atende:
- Que bom que você me ligou. Eu estive muito doente toda a semana. Estava precisando de um amigo pra me acalmar.
- Eu não sabia que você estava tão doente!! Só senti vontade de falar com você. Você que cuida tanto dos outros, precisa agora cuidar um pouco mais de si mesmo.
- Quando a gente só cuida de si mesmo, nada é suficiente. Quando a gente cuida dos outros, Deus retribui cuidando da gente com o necessário. Por isso ele mandou você me ligar.

E fui dormir tranquila, porque Deus também meu deu esse amigo.

Se eu tivesse brincado disso

Essa é a "Sela Infantil para Pais", que eu encontrei no Blog de Brinquedo.

Ahh, um desses no meu tempo de criança!! Chego a suspirar imaginando isso. É claro que brinquei muito de cavalinho com meu pai. Aliás, é ele quem mais se gaba disso. Mas com essa cela, tudo seria mais divertido para mim.
Com certeza eu iria fazer um estrago lá em casa. Senti falta apenas do cabresto e das esporas, porque bota eu tive. Eu não tive chapéu na infância, é verdade, mas tive na adolescência!

Ahh, mas por que eu precisaria de um chapéu? Afinal, eu iria correr vaquejada montada no meu pai, e meus irmãos com certeza seriam os bois. O chapéu voaria longe, logo não seria necessário. No fim das contas tudo estaria como deveria ser: minhas lindas botas devidamente ornadas com esporas, e meus lindos irmãos devidamente destacados como bois da minha vaquejada infantil. E sempre que eu derrubasse um deles, mamãe gritaria “Valeu Boi!!”. Como nos divertiríamos!! Quase lacrimejo só de pensar.
Papai e meus irmãos vão adorar ler isso, tenho certeza.

Saudades do meu tempo de criança.

Como eu gosto de música clássica

Uma pessoa muito querida me ensinou a gostar de música clássica, mas não só do estilo musical. Essa pessoa, sem saber, me ensinou a gostar de algo do jeito que eu gosto de gostar de algo: a coisa gostada e o contexto em que ela está inserida.

Quanto a estilos musicais, eu gosto de forró pé-de-serra em fim de tarde e com muita gente gargalhando ao meu redor, de aboio quando vejo os vaqueiros do sertão usando o jibão de couro como armaduras de heróicos cavaleiros, de bossa quando os amigos se reúnem pra bater papo displicentemente, e de soul quando estou apaixonada por alguém ou simplesmente pela vida, e por aí vai.

Então essa pessoa me convidou para conhecer o mundo da música clássica, e me dizia: Você sente a vibração? O autor estava sofrendo quando compôs esta sinfonia; Seu coração não acelera? É a história de uma paixão incontrolável; Veja quanta pompa para celebrar a chegada da rainha; Percebeu como os acordes são suaves? É para parecerem com os movimentos de um cisne. E esta outra é o vôo de um besouro. A partir daquele momento havia uma tela de cinema projetada nos meus ouvidos, e meu coração se acelerava no ritmo da própria música, conforme a história era contada. E meus ouvidos pareciam enxergar um mundo novo, porque cada melodia contava uma história repleta de detalhes, com personagens e paisagens ricamente descritas.

Eu gosto de música clássica quando paro para admirar as obras de Deus através da inspiração dos homens. É assim que eu gosto de ouvir música clássica.



Esta é uma cena do filme “Minha Amada Imortal”, que conta uma das versões para a vida de Ludwig Von Beethoven.

O jatobá e os juncos

Um magnífico Jatobá vivia a sua vida galhofeira (1) cercado de uma multidão de juncos farfalhantes, à beira de um riacho riachante. Orgulhoso de sua imensa copa, ele a abanava a todos os ventos de todas as partes e, de vez em quando, é natural, aproveitava para fazer uma sombra indevida aos juncos que lhe ficavam em volta (2). Os juncos, às vezes, querendo saber onde andava o sol pra calcular em quanto tempo iriam se livrar do destino sombrio, perguntavam ao imenso Jatobá: “Que horas são, amigo?” “Eu não sou amigo e não digo horas pra juncos encharcados”, respondia invariavelmente o Jatobá. Os juncos, humolhados (3), voltavam ao seu farfalho humilde, enquanto o Jatobá apregoava aos grandes companheiros das matas a glória de sua cabeleira centenária. A vida é assim.

Mas lá chega o dia...

Esse dia foi de noite. Um vendaval daqueles de derrubar até torres de arranha-céu, se arranha-céu já existisse. O Jatobá, cuja imensa galhada oferecia uma resistência gigantesca (4) às forças da natureza, veio ao chão num estrondo assustador. O chefe dos juncos, vendo aquele desastre com o gigante, gritou sabiamente pro seu grupo: “Não resistam! Agachem-se!” (5).

Tombado, o Jatobá foi arrastado pela corrente do riacho até uma serraria, onde imediatamente o transformaram em magníficas cadeiras de jacarandá. Mas os juncos, que riam satisfeitos, dançando ao sol da manhã de abril, sem a cobertura do Jatobá foram logo descobertos por empalhadores, que os arrancaram a todos e os utilizaram para empalhar cadeiras.

Espicaçados pelo vírus da filosofia, os juncos não resistiram e perguntaram a uma cadeira: “Você sabe explicar por que a queda dos poderosos é mais terrível do que a dos mais fracos, mas no fim todo mundo cai?” E a cadeira respondeu sem hesitar: “Eu não falo com junco!”.

MORAL: Orgulho não adianta; sempre se acaba com a bunda de alguém em cima.

1 – Cheia de galhos, e gozadora.
2 – Afinal, de que vale nossa alegria sem a infelicidade alheia?
3 – Quer dizer, amargurados dentro d’água.
4 – Quinta lei de dinâmica da prepotência.
5 – Segundo parágrafo do artigo primeiro da lei da sobrevivência política.

Millôr Fernandes
http://www2.uol.com.br/millor/fabulas/069.htm

A felicidade que não se alcança

Marla, Marla.... às vezes acho que ela bisbilhota minhas conversas e até meus pensamentos. Ou será que sou eu que estou bisbilhotando os dela?
Fico tão feliz quando leio os sentimentos que Marla textualiza. Felizmente, plagiar sentimentos não é um problema (espero... pelo menos), porque estou imitando Marla descaradamente.

Depois de um período especialmente difícil em minha vida, onde vivi simultaneamente uma infinidade de sentimentos bons e ruins, por diversos motivos, me deparei com uma verdade absurda: aquilo que eu estava vivendo não era algo excepcional a ponto de me impedir de ser feliz.

Eu até queria estar feliz, mas me sentia na obrigação de lamentar o que não deu certo. Ainda sinto falta de algumas pessoas, ainda desejo viver determinadas circunstâncias, ainda quero superar fatos marcantes, mas isso não me impede de sentir-me feliz. Aliás, desde que me dei conta disso, tenho sorrido muito mais. Parece que me livrei da obrigação de correr atrás de um estado ideal de felicidade, porque esse estado não existe.
E justamente por isso sinto como se estivesse vivendo esse momento, agora e em todo lugar. Às vezes eu também acordo meio borocochô, mas isso me incomoda menos, porque sei que não preciso correr atrás de um estado que naturalmente vem até mim, se eu não afastá-lo.

A felicidade não precisa ser alcançada, só precisa ser aceita.



"Caro Leitor,

Tenho estado muito ausente das palavras, não elas de mim. Apesar de ter materializado poucos textos, minha cabeça não pára de tecer metáforas e escrever cartas e descrever paisagens.

Leitor, eu tenho sentido a felicidade da forma como eu nunca havia idealizado. Percebo que após tantas perdas, havia me tornado pouco exigente com algumas coisas. E a vida, sábia, não querendo que a minha fé diminuísse me deu coisas tão maiores e melhores do que eu esperava.

Leitor, eu descobri algo muito difícil de compreender: a felicidade não tira o medo nem a melancolia de ninguém.

O medo é uma necessidade de autopreservação e a melancolia pode ser a coisa que mais desenhe lirismo num olhar. Descobri que a felicidade é um estado de espírito e me incomodou a descoberta. Deveria ser confortador, mas isto me dá uma responsabilidade grande demais. Porque eu pensava que seria feliz quando tivesse um grande amor, um bom emprego, ótimos amigos (sempre os tive) e a espiritualidade encaminhada. E hoje eu tenho tudo e, ainda assim, às vezes me vejo melancólica. E nada me impede de acordar de mau-humor ou solitária demais.
Porque eu perdi a possibilidade de ter sempre um réu, algo que me tirasse o peso da responsabilidade.

Leitor, também descobri que a plenitude dos monges é possível para nós mortais! Isso me apavorou um pouco, porque busquei demais na meditação e encontrei a plenitude na correria do dia-a-dia, no trabalho, no corpo de um poema. Leitor, a felicidade também não nos tira os pesadelos nem planta um sorriso eterno no nosso rosto. Ela vem na superação de um desafio, em forma de alívio. Mesmo estando muito feliz é possível acordar muito assustado. Eu imaginava a felicidade como uma magia que tomasse conta dos meus dias, meio à minha revelia. Mas ela não se move, ela respeita meu livre arbítrio e a minha vontade de me sentir infeliz apesar de.

O que me deixou mais aflita, leitor, foi descobrir que a felicidade nem se perde. Ela está à disposição de qualquer um que queira vibrar neste estado. A gente é que se afasta dela. Se a gente se apega ao sofrimento, às sobras, às incompletudes e às reclamações, como é possível simplesmente estar feliz e agradecer? Acho que ser feliz dá muito trabalho porque você tem que se desvencilhar da tristeza. E o abandono produz ótimas reflexões, o relacionamento falido produz mais metáforas, a falta de algo importante dá uma sensação de que injusta é a vida e que você é só vítima de um destino que não está te ajudando a ser feliz. Mas quando tudo lhe é dado assim, como um mar que se oferece pro seu mergulho, ou uma chuva que poderia fertilizar tua alma, se é o sol que faz falta, ou a sombra que te acolherá, que sentido tem a felicidade se oferecer pra mudar o teu rumo, teu humor, teus assuntos?

A felicidade deixa a gente sem assunto. A felicidade é muito mais interessante quando ela é difícil de obter.

Leitor, perceber que a distância entre qualquer um e a felicidade é uma quilometragem inventada me deixou pasma. Porque se ela sempre esteve ali, por que só consegui senti-la profundamente agora?
Porque eu precisava entender que nada me faltava, eu sempre tive o suficiente de acordo com as minhas escolhas. Hoje, o que tenho é fruto da mesma coisa.
Leitor, a felicidade talvez seja só uma escolha... e isso nos compromete demais."

Marla de Queiroz

A máquina que trilha seu próprio caminho

Poooxa, fiquei sonhando alto com a possibilidade das coisas serem assim no Brasil!
Como seria bom se todos os nossos administradores públicos tivessem pró-atividade para isso. Com certeza temos tecnologia, mão-de-obra qualificada e dinheiro para isso, acho que só nos falta a boa vontade daqueles que operam a máquina administrativa.

Quando falo de "administradores públicos" não me refiro apenas aos políticos que elegemos, mas também àqueles que fazem os órgãos públicos funcionarem, seja com eficácia, eficiência e honestidade (como tem que ser), ou com interesses pessoais. Para esses cujos interesses pessoais estão acima dos interesses do povo, eu gostaria de fazer o que Aldo Rayne (Brad Pitt, em Bastardos Inglórios) fazia com os nazis que ele queria deixar de exemplo aos outros.

Precisamos de mais operadores que façam nossa máquina trilhar seu próprio caminho.
Se um projeto desses passasse pelo Sertão, ia juntar tanta gente pra aplaudir.

Amigo

Agora a pouco recebi uma mensagem de uma das minhas melhores amigas. Minha irmã de alma, que sempre me emociona com suas palavras sábias e sua alegria inabalável. Muitas vezes, conversando, chegamos à conclusão de que Deus foi imensamente generoso em nos reunir, e não perdemos a oportunidade de agradecer e comemorar por isso. Não importa qual seja o problema que passamos, do menor ao maior, são as nossas amizades que nos fazem acreditar que Deus está sempre cuidando de nós, e do quanto Ele nos ama.

"Eu não sei se agradeço a Deus o suficiente... porque me considero uma pessoa
especialmente privilegiada.

Quando vejo meus amigos isso fica ainda mais claro: são pessoas queridas, donos de uma luz difícil de explicar, mas que enchem minha vida de uma certeza de que sempre haverá um carinho, um colo, um conselho, uma mão, um abraço aonde eu vá... pessoas que me ensinam sobre generosidade e fé, amigos que me dão lindas lições de força e redobram a minha quando eu penso em falhar... pessoas que conseguem me dar a exata noção do verdadeiro significado da afinidade, do companheirismo, da parceria!!!

Como é bom reconhecê-los pelo sorriso largo nos nossos reencontros, sinto o afeto estampado no rosto, é clara a felicidade que esse reencontro nos trás. Guardo com carinhos as gargalhadas compartilhadas, as festas, as viagens, o aperto financeiro dividido, os amigos de faculdade, o acolhimento que recebi quando cheguei em Recife, e dos amigos que além de amigos também dividiram suas casas e suas famílias conosco. Guardarei os amigos que chegaram através de outros amigos, aqueles que fizeram parte de momentos difíceis e tornaram tudo mais fácil. E como esquecer meus colegas de trabalho, da Faculdade, do ônibus de Cortês, dos plantões que muitas vezes foram mais do que trabalho, foram momentos de alegria? Como encontrei em todos esses lugares pessoas disponíveis que sempre estiveram de prontidão para me ajudar, que tanto me ajudaram antes da chegada de meu filho Pedrinho, como vocês foram incríveis!!!!
Como esquecer que todo ambiente de trabalho foi melhor quando esse vínculo foi estabelecido, e como foi fácil tornar tudo isso uma fase tão especial da minha vida?

É tão bom sentir que os velhos amigos permanecem novos, e que os novos também se tornaram velhos amigos... quero dizer a todos que vocês são muito especiais em minha vida, e que o meu sentimento de gratidão pelo que cada um me deixa andará comigo sempre...

E a única maneira de retribuir é conseguir ser para vocês tão boa amiga o quanto cada um de vocês consegue ser para mim!!!! Feliz dia do amigo!!!!"

Gardênia

Plumas ao Vento

É tudo tão estranho.
De repente, o homem do destino assopra nossas vidas como plumas, e elas saem voando ao sabor do vento, sabe-se lá para onde.
Nesse momento, muitos poderiam olhar para trás e pensar: foi só isso? Tudo o que eu planejei para o futuro, tudo o que eu construí, tudo que estava em curso, tudo... tudo se resume a isso?

Não faz diferença se você construiu um império de riquezas ou se nunca conseguiu guardar algo para si, se construiu uma grande rede de relacionamentos ou se viveu como eremita longe de tudo e de todos.
Na hora H, sua perplexidade com a finitude da vida pode ser a mesma.
É que nós humanos temos a tendência a pensar em escala temporal. Tá tudo errado!
Pouco importa o que foi feito ontem, o momento presente, os planos de amanhã. Não é o tempo que devemos medir, tampouco o esforço que empregamos, ou os resultados que alcançamos.

Pode parecer simplório, mas é apenas simples: O que faz diferença é só o amor que você empregou em sua vida. Não é a paixão, nem a devoção. É só o amor sincero e despretensioso.

Ame o fruto de qualquer trabalho digno. Se tiver desafetos, ame-os pelo menos não desejando-lhes o mal. Ame uma cultura ou uma comunidade, mas não desmereça as outras. Ame profundamente seus filhos, ensinando-os a amar os outros. Ame os que já se foram, respeitando o que eles também construíram com amor. Ame até aqueles que ainda não nasceram, cuidando do mundo onde eles viverão. Ame mesmo que ninguém saiba do seu amor, ame sem cobranças, sem posse, sem força. Ame serena e intensamente.

E quando sua pluma for jogada ao vento, você olhará para trás e poderá até achar que tudo o que você construiu e planejou não foi de fato tão importante.
Mas quando você se lembrar do amor que dedicou em sua vida, você poderá dizer: algo realmente valeu à pena, e levarei comigo a qualquer lugar, em qualquer tempo.

E você saberá que se permitindo amar, você amou mais ainda a si mesmo, porque se presenteou com uma vida cujo percurso foi ainda mais gratificante que os objetivos alcançados.

Esse texto foi fruto de uma conversa entre amigos perplexos com a perda de uma querida amiga, cuja pluma foi assoprada repentinamente, deixando todos saudosos, mas agradecidos por todo o amor que ela soube distribuir por onde passou.

Um Mimo de Amigo

Hoje saí cedo de casa e deixei D. Socorro, minha diarista que vem aos sábados, sozinha. Avisei que passaria todo o dia fora, fazendo um curso, e que ela fizesse o de sempre. A semana foi puxada e eu não pude fazer uma feira decente. Despensa e geladeira praticamente vazias.

- D. Socorro, a única coisa que tem na geladeira é uma carne de sol. Faz aí o que se pode fazer com uma carne de sol. Só não faz galinha ao molho porque eu já tô enjoada.
- Vou fazer bife acebolado!
- Ta ótimo!! Só tem um problema: não comprei cebola!
- Tem nada nãããããão, minha filha! Vai ficar bom assim mesmo.

D. Socorro é uma senhora alegre, otimista, generosa, super-mãe de dois filhos e muito batalhadora. Ela é lá do sertão, como eu, e por isso digo que falamos o mesmo dialeto. Eu entendo seus sentimentos pelo fato de ter crescido no sertão brabo, pobre e machista de Pernambuco, e por isso também imagino o que dizer para amenizar o que foi doloroso. Ela conhece as desventuras mais dolorosas que vivi, e me conforta dizendo que ora sempre por mim, e que tem certeza que tudo vai dar certo no final. E quando dá certo, ela pisca o olho pra mim e me diz:

- Eu não disse, minha filha? Eu só descanso de orar quando eu consigo!

Somos meio confidentes, torcemos e vibramos uma pela outra, e estabelecemos uma relação de confiança mútua. Mas também acordamos que não vamos misturar os papéis, justamente para não interferirmos na amizade.

Cheguei agora, já noite, pensando apenas em descansar a mente, porque o corpo já estava praticamente desmaiado. E eis o que encontro: um belo bolo tamanho G em cima da minha mesa, e uma jarra de suco de maracujá super forte dentro da geladeira! O prêmio do guerreiro de volta ao lar.

Epa! Mas não tinha maracujá na minha geladeira! Aliás, eu acho até que a margarina tinha acabado. E o bife acebolado tem cebola!!!!!! :O

É muito mais do que eu esperava, e exatamente o que eu precisava. Nem eu sabia que precisava disso pra encerrar meu dia satisfeita.

D. Socorro sempre adivinha quando estou precisando de um mimo, e eu sei que vindo dela tem absolutamente nada a ver com bajulação ou obrigação, mas com zelo e carinho. É por isso que ter um amigo que simplesmente nos deseja a felicidade já torna nossa vida mais feliz.

Poesia Matemática - Millôr

Poesia Matemática

Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a, do Ápice à Base,
uma figura ímpar:
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo octogonal, seios esferóides.
Fez da sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidianas
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar,
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
Freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
Tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.

Millôr Fernandes
http://www2.uol.com.br/millor/aberto/poemas/003.htm

Imagem: Oskar Schelemmer

River Live

Para ouvir olhando pela janela com cara de saudade, mas por dentro estar apenas pensando no que vai jantar.
Ainda ouvindo, você segue para a cozinha e começa a preparar o jantar com cara de empenho, mas por dentro sente uma pontada de saudade.

Esperainda!! Isso é saudade ou é fome?
Ahh, quase esqueci. Isso é River Live, isso é a vida!
Acho que vou ouvir novamente. :)

Bodegas

Dá uma saudade das bodegas de Penaforte... :)

Na bodega de S. Nicolau eu pedia pra ele anotar no caderno que eu tinha pego (por exemplo) R$2,00 de biscoito, mas pegava apenas R$1,00 e pedia o troco. E ele me dava!!! Aliás, S. Nicolau tinha até foto de mim quando bebê guardada na gaveta, e me tratava como uma netinha.

Na bodega de D. Santa eu só ia pra comprar chiclete e paquerar o sobrinho dela. Paquerar mascando chiclete é o máximo, você se sente tão descolada, tão prafrentex. Mas naquela idade eu ainda não sabia que determinadas paqueras podem ser transformar em namoro, e quando o menino quis conversar comigo, eu mudei de bodega. Eu não queria namorar, eu só queria brincar de paquerar, do mesmo jeito que eu brincava de amarelinha e de concurso de miss. Não tenho paciência pra gente que não sabe brincar ou não entende piada.

Já a de D. Jesus era uma espécie de "lanchonete" para sertanejo. Doces, bolos, caldos e cuscuz de todos os tipos. Era o paraíso das crianças que gostam de mangai (que é o mesmo que bobagens deliciosas), e onde eu e meus irmãos fizemos as dívidas mais absurdas para meus pais.
Dona Jesus tinha dois tipos de doce de leite: o liso e o cortado; e três tipos de bolo de trigo: o liso, o fofo e o mole. As variações não eram apenas de consistência, eram também os motivos da comida ser tão divertida ali. E, é claro, ainda havia os doces de banana, mamão, mamão com coco, batata doce, gergelim, e os bolos de puba e de milho, e as cocadas, e o caldo de mocotó, e o cuscuz com carne, e o pão torrado com manteiga de garrafa, e o café moído em casa, e a cajuína em garrafa de cerveja, e finalmente o copo de água de pote para desentalar a garganta e limpar os rins.

Ahh, eu quase esqueço da Bodega de S. David, onde se vendia pingas, cervejas, cigarros, balas e doces industrializados, e outras coisas de que não me lembro. Eu não costumava frequentá-la, afinal lá não havia atrativos para mim. Meu nicho eram os doces e bolos regionais. O industrializados só me interessavam se houvesse uma segunda intenção por trás. Mas S. David era famoso por ser muito fofoqueiro, e por falar as coisas mais hilárias sobre qualquer pessoa, por isso sua bodega era ponto de referência na cidade. Meu avô adorava conversar com ele. S. David pertence ao hall de "figuras folclóricas" de Penaforte.

PS: Já perceberam que todos os nomes de donos de bodega que citei aqui remetem a algum personagem bíblico? Coincidência, eu garanto. Mas não me admira, afinal, em Penaforte também existe o "Bar do Padre".

A Declaração

Este fim de semana vi uma linda cena protagonizada por um casal. Eles não perceberam que eu estava por perto, e achando que estavam sozinhos, ele se declarou para ela. E ele falou mais ou menos assim:

"Você é o amor da minha vida, porque você é a mãe dos meus filhos, é a minha melhor amiga, é quem me apóia, me protege, me ajuda com meus problemas e tolera meus defeitos. Você é a minha companheira de todas as horas e quem ilumina minha vida".

Foi emocionante porque ele não é dado à poesia, mas quando fala com o coração é incrivelmente sensível.
A resposta dela foi dada em silêncio, com o olhar mais amoroso e apaixonado que alguém pode dar.

Foi muito emocionante ver meu pai se declarar para minha mãe.